Memento mori é uma contradição: memória é a recusa da ausência. Se ser humano é o movimento a que damos o nome de vida, a existência somente resiste por uma breve persistência do ser na memória; é a lembrança (keepsake, souvenir): palavra, fotografia, nostalgia, saudade. Na anulação da memória, a humanidade se une… na sua própria e perene extinção: Lost in time, like tears in the rain – palavras de um replicant que se desligava, num curto-circuito de emoção.

            Passaram-se dez anos. E retorno ao prédio em que estava naquela manhã de setembro. Não me recordo do tema da aula de química, tampouco dos acontecimentos anteriores naquela manhã. Não chovia, isso é certo. Mas, suspeito que o manto azulado que sempre vislumbro em lembrança seja um empréstimo daquele outro céu televisionado, descerrado, desnudo de qualquer formação nubilosa que pudesse obstaculizar as cenas das colisões nas torres. Um sopro de memória, porém, lembra-me de que, no caminho para casa, no banco traseiro do automóvel, incomodei-me ao constatar que os raios de sol que alcançavam meu braço não aqueciam minimamente a epiderme atingida; diferente do sol que nos apanha parte do corpo como chamado de muitas mãos não visíveis, havia um sol naquele dia, acanhado, receoso, como se, tendo conhecido os eventos, apalpar-nos tivesse se tornado um gesto insuportável.

            Anunciaram nos corredores que um avião acabara de se chocar contra o world trade center; houve discussão no relato da notícia – era acidente, um monomotor, um ataque aéreo em nova iorque, um boeing – houve discussão para ligarmos a televisão, houve a recusa do professor: Isso não cairá no vestibular de vocês… Até que a professora de história usurpou a sala com um controle remoto, a bradar que vivíamos um momento histórico. Foi tempo suficiente para assistirmos ao segundo boeing rasgar a segunda torre adentro. Houve quem celebrasse, num grito contido, em breves palmas, em manifestos víndices. Houve quem se abalasse, numa comoção reprimida, em breves suspiros, em manifestas lágrimas. O que tomou conta de nossa maioria, porém, foi um espanto paralisante. Assistimos à explosão do segundo avião, ao espesso fumo dos incêndios e às quedas de dois gigantes de aço e concreto. A todo momento, imersos em nossas próprias reproduções sonoras, que o aparelho televisivo estava mudo, por defeito de meses. Sem repórteres, sem interventores, sem os gritos humanos, sem as sirenes, sem os estrondos das explosões, sem os gemidos dos metais a se contorcerem, sem a agressão dos estilhaços, compúnhamos, cada qual em si, os sons e os estrépitos que melhor calhavam ao seu horror. Mas, o sentido do silêncio extrapolava a simples disfunção do aparelho e o susto dos telespectadores. Talvez, fosse assim adequado. O mundo me pareceu mudo.

            Há pouco mais de ano, visitei o sítio dos atentados. Escapei, junto com dois amigos, do costumeiro itinerário turístico e fomos ao local em que, anos antes, estavam cravados os dois grandes edifícios. Não foi difícil encontrá-lo, que a lógica nos indicava que bastava que seguíssemos aquele espaço despido de construções, uma incômoda clareira urbana que não fosse praça. Alcançamos uma extensão gradeada, as laterais protegidas por uma lona azul que impedia a vista dos transeuntes. Escalei a tela de metal e, daquele ponto, contemplei um terreno de obras pavoroso: na vastidão de extensas quadras, vi dezenas de escavadeiras, pás-carregadeiras, basculantes, guindastes, caminhões-pipa, betoneiras, tratores, e centenas de trabalhadores, todos em operação a dezenas de metros abaixo do nível em que nos encontrávamos. Uma profunda úlcera urbana sob intervenção cirúrgica. A um policial que passava, perguntei o que estavam a fazer. Deu-me um sorriso tristonho, Vão levantar cinco prédios e o do meio será o mais alto deles. Lançou um olhar, contornando as torres, ainda estivessem presentes e reassumiu a passada, a concluir, Assim, saberão além-mar que estamos lhes mostrando o dedo do meio. Voltei-me novamente àquela chaga de terra e metais e repeti o gesto do policial, de baixo a cima, a tentar projetar o que teriam sido aquelas construções. E, pela primeira vez, ao perceber a ausência de duas torres que conhecera nos cartões postais e nas fotografias de viagens, às quais me acostumara com os filmes e as reportagens, mesmo com aquelas que registraram os ataques, que as torres ainda estavam ali, incendiadas, em queda, mas ainda ali, ao notar que aquele vasto campo de obras exibia as fundações de prédios dali subtraídos, dei-me pelo vazio daquilo e senti o horror que aqueles atentados promoveram.

            Um sábio amigo (Timm) me esclareceu recentemente: o tempo das construções física e simbólica das duas torres não correspondeu ao tempo de suas desconstruções. Os atos terroristas criaram um descompasso insanável. Prédios sofrem desgastes, são abandonados, ruem no tempo e, mesmo quando implodidos, são objetos de protocolos públicos e de segurança que nos preparam para suas extinções. Para aqueles que planejaram e executaram os ataques, árabes e americanos, muçulmanos e judeus, alienados islâmicos e fanáticos puritanos, que não é preciso ser criminólogo para compreender que um crime tão complexo demanda a conivência, quiçá a participação, de muitos agentes e profissionais, para esses anônimos autores, a experiência da destruição dos edifícios foi vivenciada por meses ou anos. Para aqueles que sofreram ou assistimos aos ataques, a perda foi imediata. Qualquer sentido, dissipado em chamas e fuligem. Subtraíram-nos um signo e ficamos a contemplar algo-que-não-mais-ali-estava.

            Passaram-se dez anos e a intensa repetição e a superexposição dos eventos quase tornaram a tragédia em banalidade jornalística; a contagem dos corpos, sempre as questões quantitativas, não justificou a reação bélica, que produziu, somente do lado americano, baixas que ultrapassaram as vítimas diretas dos atentados; houve quem passasse a bradar que os autores dos atentados tinham suas razões, mas a lucidez de alguns homens rapidamente lembrou-nos que não se atira um avião carregado de passageiros civis contra um prédio, com outros milhares de civis. Passaram-se dez anos e nem mesmo as distâncias que nos separam daquela cidade e de seu 11 de setembro de 2001 amenizaram os efeitos do terror. Por que aquelas torres ainda nos assombram e, a tal gravidade, que no oco de seus lugares projetaram-se fachos de luz ao infinito do céu, como dois espectros em vigília à cidade? Porque se percebeu que a invisibilidade instantânea é a subtração da memória. Porque é necessário reviver, a cada dia, aquela tragédia para ela não se perder na sutil violência de sua própria extinção no tempo.

           (Sabemos disso porque somos prestidigitadores habituados a fazer pessoas e histórias desaparecerem. Porque desenvolvemos o hábito de condenar nossos inimigos à mais grave das penas, que é a invisibilidade corporal, biográfica, histórica. Dos anos de regimes autoritários, há um grito abafado nos arquivos secretos militares de dezenas de milhares de latino-americanos que não retornaram para suas casas e não mandaram mais notícias. Do engatinhar do período democrático, guardamos, dentre outros eventos, aquele outubro de 1992, quando 111 detentos do complexo do Carandiru foram extintos com tiros à queima-roupa, em evidente execução sumária planejada e coordenada por uma intervenção militar no presídio, sem que qualquer de seus nomes fosse noticiado. Na nossa tradição de se apagar as misérias de nossa história, ao se completar uma década do massacre, iniciaram-se a desmontagem e a demolição dos edifícios prisionais. Recordemos, então, de uma biografia assassinada: Sandro Barbosa do Nascimento, vítima de uma racionalidade sistêmica que condicionou sua sobrevivência a um cronômetro regressivo. Quando escapou da morte na chacina da Candelária (episódio ocorrido na madrugada de 23 de julho de 1993, em que policiais militares assassinaram crianças que dormiam nas proximidades da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro), não foi capaz de prever que aquele alívio metafísico seria contraditado pelo cruel determinismo da anulação; no ano de 2000, após o seqüestro de um ônibus, foi morto por policiais militares, asfixiado logo após ter sido detido. Sua invisibilidade foi reforçada com a troca do nome da rota do ônibus: tendo a referência Ônibus 174 se tornado vinculada ao seqüestro, a rota entre Central do Brasil e Gávea foi alterada para Ônibus 158, em novembro de 2001. Mais recente, ainda, temos a rebelião geral do PCC nos presídios, na terceira semana de maio de 2006, quando as notícias propagadas nos informaram de centenas de mortes comandadas pela facção criminosa paulista; passados cinco anos, um elaborado estudo de Harvard nos comprova que, em pelo menos 122 daquelas mortes, houve participação ativa de agentes policiais envolvidos em grupos de extermínio.)

          Há uma equação elementar na matemática existencial: “o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória” (Kundera). O que nos leva a concordar com a face reversa do cálculo, conforme a qual o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento. Num mundo configurado pela constante aceleração dos eventos, pela impessoalidade da técnica, pela burocratização da responsabilidade, pela virtualidade dos relacionamentos, pelas chamas do êxtase, pelo culto ao orgasmo do consumo, reconhecer forma àquilo que nos envolve tornou-se uma exigência inalcançável. Neste mundo deformado pela velocidade, vão a se perder as narrativas pessoais com todas as suas particularidades, o peso das experiências, a duração do erotismo, a sensibilidade do toque, a amplitude do horizonte – esta a tal gravidade que o mundo se condena a um eterno presente (Beauvoir), com o passado amnésico e com o futuro antecipado pelo cartão de crédito.

            Há o alívio de delegar esse arranjo estrutural a abstrações amorfas: economia globalizada, crises, redes sociais, criminalidade, política, terrorismo. Mas, cá me vem a lembrança daqueles aviões, na aceleração final tomada antes dos impactos, a ferir o tempo, descompassando-o com a invisibilidade repentina. Em seus interiores, havia homens que cumpriam um atentado planejado. Voltam-me à mente os prisioneiros do Carandiru, os meninos da Candelária, os jovens suspeitos que voltavam para casa e os vejo todos mortos, extintos pela alta rotação de metralhadoras. Com os dedos nos gatilhos, homens encapuzados, sem identidades – e assim têm de o ser, porque camuflam sob o pano todos os nossos rostos. Num curto-circuito, não vislumbro mais uma época entregue à velocidade e, por isso, esquecida de si mesma; testemunho o inverso: um tempo obcecado pelo desejo do esquecimento e que para saciá-lo, entrega-se à velocidade (Kundera).

            Caminhamos acelerados. Não pela amnésia de um contexto que tende a ser tão veloz quanto a luz, porém pela vontade do êxtase singular, pela intenção de anular a memória e alcançar a irreversibilidade do esquecimento. Advertiu-nos gratuitamente o Nada: “estamos nisso – e, cada vez mais, vamos estar nisso.” (Camus) E só poderemos evitar a anulação da humanidade na resistência incômoda que anuncia uma lembrança, tal como aquelas projeções espectrais de luz que vigiam a cidade.

Curitiba, 24 de novembro de 2011.

Leandro Ayres França