Memento mori é uma contradição: memória é a recusa da ausência. Se ser humano é o movimento a que damos o nome de vida, a existência somente resiste por uma breve persistência do ser na memória; é a lembrança (keepsake, souvenir): palavra, fotografia, nostalgia, saudade. Na anulação da memória, a humanidade se une… na sua própria e perene extinção: Lost in time, like tears in the rain – palavras de um replicant que se desligava, num curto-circuito de emoção.

            Passaram-se dez anos. E retorno ao prédio em que estava naquela manhã de setembro. Não me recordo do tema da aula de química, tampouco dos acontecimentos anteriores naquela manhã. Não chovia, isso é certo. Mas, suspeito que o manto azulado que sempre vislumbro em lembrança seja um empréstimo daquele outro céu televisionado, descerrado, desnudo de qualquer formação nubilosa que pudesse obstaculizar as cenas das colisões nas torres. Um sopro de memória, porém, lembra-me de que, no caminho para casa, no banco traseiro do automóvel, incomodei-me ao constatar que os raios de sol que alcançavam meu braço não aqueciam minimamente a epiderme atingida; diferente do sol que nos apanha parte do corpo como chamado de muitas mãos não visíveis, havia um sol naquele dia, acanhado, receoso, como se, tendo conhecido os eventos, apalpar-nos tivesse se tornado um gesto insuportável.

            Anunciaram nos corredores que um avião acabara de se chocar contra o world trade center; houve discussão no relato da notícia – era acidente, um monomotor, um ataque aéreo em nova iorque, um boeing – houve discussão para ligarmos a televisão, houve a recusa do professor: Isso não cairá no vestibular de vocês… Até que a professora de história usurpou a sala com um controle remoto, a bradar que vivíamos um momento histórico. Foi tempo suficiente para assistirmos ao segundo boeing rasgar a segunda torre adentro. Houve quem celebrasse, num grito contido, em breves palmas, em manifestos víndices. Houve quem se abalasse, numa comoção reprimida, em breves suspiros, em manifestas lágrimas. O que tomou conta de nossa maioria, porém, foi um espanto paralisante. Assistimos à explosão do segundo avião, ao espesso fumo dos incêndios e às quedas de dois gigantes de aço e concreto. A todo momento, imersos em nossas próprias reproduções sonoras, que o aparelho televisivo estava mudo, por defeito de meses. Sem repórteres, sem interventores, sem os gritos humanos, sem as sirenes, sem os estrondos das explosões, sem os gemidos dos metais a se contorcerem, sem a agressão dos estilhaços, compúnhamos, cada qual em si, os sons e os estrépitos que melhor calhavam ao seu horror. Mas, o sentido do silêncio extrapolava a simples disfunção do aparelho e o susto dos telespectadores. Talvez, fosse assim adequado. O mundo me pareceu mudo.

            Há pouco mais de ano, visitei o sítio dos atentados. Escapei, junto com dois amigos, do costumeiro itinerário turístico e fomos ao local em que, anos antes, estavam cravados os dois grandes edifícios. Não foi difícil encontrá-lo, que a lógica nos indicava que bastava que seguíssemos aquele espaço despido de construções, uma incômoda clareira urbana que não fosse praça. Alcançamos uma extensão gradeada, as laterais protegidas por uma lona azul que impedia a vista dos transeuntes. Escalei a tela de metal e, daquele ponto, contemplei um terreno de obras pavoroso: na vastidão de extensas quadras, vi dezenas de escavadeiras, pás-carregadeiras, basculantes, guindastes, caminhões-pipa, betoneiras, tratores, e centenas de trabalhadores, todos em operação a dezenas de metros abaixo do nível em que nos encontrávamos. Uma profunda úlcera urbana sob intervenção cirúrgica. A um policial que passava, perguntei o que estavam a fazer. Deu-me um sorriso tristonho, Vão levantar cinco prédios e o do meio será o mais alto deles. Lançou um olhar, contornando as torres, ainda estivessem presentes e reassumiu a passada, a concluir, Assim, saberão além-mar que estamos lhes mostrando o dedo do meio. Voltei-me novamente àquela chaga de terra e metais e repeti o gesto do policial, de baixo a cima, a tentar projetar o que teriam sido aquelas construções. E, pela primeira vez, ao perceber a ausência de duas torres que conhecera nos cartões postais e nas fotografias de viagens, às quais me acostumara com os filmes e as reportagens, mesmo com aquelas que registraram os ataques, que as torres ainda estavam ali, incendiadas, em queda, mas ainda ali, ao notar que aquele vasto campo de obras exibia as fundações de prédios dali subtraídos, dei-me pelo vazio daquilo e senti o horror que aqueles atentados promoveram.

            Um sábio amigo (Timm) me esclareceu recentemente: o tempo das construções física e simbólica das duas torres não correspondeu ao tempo de suas desconstruções. Os atos terroristas criaram um descompasso insanável. Prédios sofrem desgastes, são abandonados, ruem no tempo e, mesmo quando implodidos, são objetos de protocolos públicos e de segurança que nos preparam para suas extinções. Para aqueles que planejaram e executaram os ataques, árabes e americanos, muçulmanos e judeus, alienados islâmicos e fanáticos puritanos, que não é preciso ser criminólogo para compreender que um crime tão complexo demanda a conivência, quiçá a participação, de muitos agentes e profissionais, para esses anônimos autores, a experiência da destruição dos edifícios foi vivenciada por meses ou anos. Para aqueles que sofreram ou assistimos aos ataques, a perda foi imediata. Qualquer sentido, dissipado em chamas e fuligem. Subtraíram-nos um signo e ficamos a contemplar algo-que-não-mais-ali-estava.

            Passaram-se dez anos e a intensa repetição e a superexposição dos eventos quase tornaram a tragédia em banalidade jornalística; a contagem dos corpos, sempre as questões quantitativas, não justificou a reação bélica, que produziu, somente do lado americano, baixas que ultrapassaram as vítimas diretas dos atentados; houve quem passasse a bradar que os autores dos atentados tinham suas razões, mas a lucidez de alguns homens rapidamente lembrou-nos que não se atira um avião carregado de passageiros civis contra um prédio, com outros milhares de civis. Passaram-se dez anos e nem mesmo as distâncias que nos separam daquela cidade e de seu 11 de setembro de 2001 amenizaram os efeitos do terror. Por que aquelas torres ainda nos assombram e, a tal gravidade, que no oco de seus lugares projetaram-se fachos de luz ao infinito do céu, como dois espectros em vigília à cidade? Porque se percebeu que a invisibilidade instantânea é a subtração da memória. Porque é necessário reviver, a cada dia, aquela tragédia para ela não se perder na sutil violência de sua própria extinção no tempo.

           (Sabemos disso porque somos prestidigitadores habituados a fazer pessoas e histórias desaparecerem. Porque desenvolvemos o hábito de condenar nossos inimigos à mais grave das penas, que é a invisibilidade corporal, biográfica, histórica. Dos anos de regimes autoritários, há um grito abafado nos arquivos secretos militares de dezenas de milhares de latino-americanos que não retornaram para suas casas e não mandaram mais notícias. Do engatinhar do período democrático, guardamos, dentre outros eventos, aquele outubro de 1992, quando 111 detentos do complexo do Carandiru foram extintos com tiros à queima-roupa, em evidente execução sumária planejada e coordenada por uma intervenção militar no presídio, sem que qualquer de seus nomes fosse noticiado. Na nossa tradição de se apagar as misérias de nossa história, ao se completar uma década do massacre, iniciaram-se a desmontagem e a demolição dos edifícios prisionais. Recordemos, então, de uma biografia assassinada: Sandro Barbosa do Nascimento, vítima de uma racionalidade sistêmica que condicionou sua sobrevivência a um cronômetro regressivo. Quando escapou da morte na chacina da Candelária (episódio ocorrido na madrugada de 23 de julho de 1993, em que policiais militares assassinaram crianças que dormiam nas proximidades da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro), não foi capaz de prever que aquele alívio metafísico seria contraditado pelo cruel determinismo da anulação; no ano de 2000, após o seqüestro de um ônibus, foi morto por policiais militares, asfixiado logo após ter sido detido. Sua invisibilidade foi reforçada com a troca do nome da rota do ônibus: tendo a referência Ônibus 174 se tornado vinculada ao seqüestro, a rota entre Central do Brasil e Gávea foi alterada para Ônibus 158, em novembro de 2001. Mais recente, ainda, temos a rebelião geral do PCC nos presídios, na terceira semana de maio de 2006, quando as notícias propagadas nos informaram de centenas de mortes comandadas pela facção criminosa paulista; passados cinco anos, um elaborado estudo de Harvard nos comprova que, em pelo menos 122 daquelas mortes, houve participação ativa de agentes policiais envolvidos em grupos de extermínio.)

          Há uma equação elementar na matemática existencial: “o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória” (Kundera). O que nos leva a concordar com a face reversa do cálculo, conforme a qual o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento. Num mundo configurado pela constante aceleração dos eventos, pela impessoalidade da técnica, pela burocratização da responsabilidade, pela virtualidade dos relacionamentos, pelas chamas do êxtase, pelo culto ao orgasmo do consumo, reconhecer forma àquilo que nos envolve tornou-se uma exigência inalcançável. Neste mundo deformado pela velocidade, vão a se perder as narrativas pessoais com todas as suas particularidades, o peso das experiências, a duração do erotismo, a sensibilidade do toque, a amplitude do horizonte – esta a tal gravidade que o mundo se condena a um eterno presente (Beauvoir), com o passado amnésico e com o futuro antecipado pelo cartão de crédito.

            Há o alívio de delegar esse arranjo estrutural a abstrações amorfas: economia globalizada, crises, redes sociais, criminalidade, política, terrorismo. Mas, cá me vem a lembrança daqueles aviões, na aceleração final tomada antes dos impactos, a ferir o tempo, descompassando-o com a invisibilidade repentina. Em seus interiores, havia homens que cumpriam um atentado planejado. Voltam-me à mente os prisioneiros do Carandiru, os meninos da Candelária, os jovens suspeitos que voltavam para casa e os vejo todos mortos, extintos pela alta rotação de metralhadoras. Com os dedos nos gatilhos, homens encapuzados, sem identidades – e assim têm de o ser, porque camuflam sob o pano todos os nossos rostos. Num curto-circuito, não vislumbro mais uma época entregue à velocidade e, por isso, esquecida de si mesma; testemunho o inverso: um tempo obcecado pelo desejo do esquecimento e que para saciá-lo, entrega-se à velocidade (Kundera).

            Caminhamos acelerados. Não pela amnésia de um contexto que tende a ser tão veloz quanto a luz, porém pela vontade do êxtase singular, pela intenção de anular a memória e alcançar a irreversibilidade do esquecimento. Advertiu-nos gratuitamente o Nada: “estamos nisso – e, cada vez mais, vamos estar nisso.” (Camus) E só poderemos evitar a anulação da humanidade na resistência incômoda que anuncia uma lembrança, tal como aquelas projeções espectrais de luz que vigiam a cidade.

Curitiba, 24 de novembro de 2011.

Leandro Ayres França

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O TERMO DO RAMADÃ

Publicado: 14 de novembro de 2010 em Uncategorized

 

             Chega ao termo o meu ramadã. De julho a outubro, retirei-me silente ao isolamento de leituras cruelmente selecionadas. Se me escondi, se me calei, se não escrevi uma linha de crônica, de crítica ou de conto foi porque um sopro de bom-senso me cantava que, em períodos de fanatismo, é melhor pousar a pena que sustentá-la como flâmula.

            Descansei a escrita quando a bola rolou nos gramados artificiais da África do Sul. Quando testemunhei minhas contribuições tributárias a se esvaírem no sustento luxuoso de moleques negligentes e de toda uma comitiva não-nominada absolutamente desnecessária. Quando a espontaneidade da rede mundial, implorando que o narrador dos jogos se calasse, foi silenciada na manutenção do chato em seu posto. Quando, na falta do bom jogo, os operadores de câmera preferiram filmar uma bela modelo paraguaia. – Larissa Riquelme tornou-se a primeira modelo a fazer um ensaio nu em 3D, ganhou fama e as páginas da Playboy, porque colocou seu celular entre os seios; se o tivesse enfiado em outro lugar, teria vencido a eleição presidencial brasileira em primeiro turno, em fantástica vingança à guerra na qual transformamos o seu país em ruínas.

            E a página permaneceu rasa quando as promessas, as ofensas e as beatices se candidataram aos cargos políticos. Propostas, houve-as de sobra, para que eu escrevesse contra um ou outro candidato: encomendas partidárias, súplicas apaixonadas, um sem número de imbecis que afirmaram que era necessário discutir aquilo que se debatia. Mas, isso me pareceu algo mais inútil do que minhas próprias palavras: na ausência de programas de governo, de projetos políticos, de proposições sociais reais, neguei-me a alcançar a caneta tombada.

            A política brasileira é tão ridícula quanto o vira-lata que empreende suas forças na caça ao próprio rabo. A sentença de Antônio Abujamra é certeira: Este país é ridículo; adeus. Discute-se aborto na corrida presidencial, o que prova que é a moral (arcaica) que impera no lugar de leis; concede-se espaço para que grupos religiosos exijam comprometimentos por escrito dos candidatos, o que, ao ver de um penalista, é constrangimento ilegal passível de punição; exige-se uma lei da ficha-limpa, o que comprova que o eleitor é intelectualmente incapaz de distinguir entre um bom profissional e um indivíduo criminoso. As eleições são de uma comicidade que encanta. Para rir da tristeza alheia, porém, prefiro acostar-me ao sofá e assistir aos adoráveis filmes de Buster Keaton e Charles Chaplin… Ao menos, eles jamais negaram transvestirem-se de palhaços.

            Esse silêncio tem um quê de aprendizado religioso. Quando me debruço na análise das grandes religiões, subtraindo todas as asneiras escatológicas, aplicando-lhes a raiz do bom-senso sobre uma base de respeito ao homem, encontro mínimos divisores comuns, dos quais é possível extrair algo com certa utilidade. Assim, contemplo este cristianismo envelhecido, figueira seca da qual se extraem a perpetuação dos crimes e o costume do bom vinho. Do hinduísmo, resta pouca lucidez senão a possibilidade da teofagia a um passo de uma churrascaria. Do ortodoxismo, admiro a arquitetura; e isso basta à história. A religião islâmica é démodé como um carro-de-boi: tem o seu encanto, o seu ruído característico e bem caberia em um museu. Contudo, no cavoucar do baú das crendices do islã, encontro este fragmento de sapiência, tão mal compreendido por aqueles distantes à sua cultura: no nono mês do calendário islâmico, os praticantes realizam um exercício de abstinência entre o nascer e o pôr-do-sol com a finalidade de aprimorar a paciência, a humildade, a empatia pelos desafortunados, a reflexão de seus próprios atos, a espiritualidade, a orientação para a humanidade e vidência de orientação e discernimento (Alcorão 2:185).

            Bateado de todas as outras atividades religiosas com as quais não comungo ou simpatizo, o quarto pilar do islamismo traduz-se em importante ensinamento e justifica o retiro do verbo e a alvura das páginas pelos quatro meses que se passaram.

            Retorno à escrita num guardanapo de papel. Quando, perdido na noite, acabo em uma casa de tolerância na qual não há meretriz que represente o meu desejo, adoto única e singela postura: concentro-me na bebida que tenho em mãos e me dou por satisfeito. Calado; porque não se faz revolução em puteiro.

 

            (Um amigo físico-poeta, a quem admiro pela sinceridade, revelou-me a alta probabilidade de que a crônica seja recebida com um Tá, e daí que você ficou tempo sem escrever? Não discordei e tomei outro gole.)

 

Curitiba, 06 de novembro de 2010.

 

 

 Leandro França

 Advogado / Escritor

 

            “Aí, a carne vai acumulando um bolo no intestino que, dentro de vinte anos, vira uma massa fecal de vinte centímetros altamente cancerígena…” Eram onze e vinte da noite, de uma segunda-feira. Eu acordara às quatro e meia da manhã, viajara para São Paulo, voara para o Rio de Janeiro, ficara preso num compromisso por quatro horas, perdera o almoço, derretera sob uma tarde de quarenta graus, estava de retorno para minha batcave. E eu queria somente uma coisa: terminar de ler o livro que tinha em mãos…

            É impossível eliminar um chato. É também ilegal. Mas, a impossibilidade dessa extinção reside na constatação de que, se fosse possível e autorizado, eliminaríamos uns aos outros. Sim, pois também sou chato. A cada novo livro, a cada nova crônica, a cada nova manifestação cresce o número de indivíduos que me considera como tal. P., meretriz de rua, amiga sincera, leitora voraz (e fanática por James Joyce), aconselhou: “Essa merda de escrever vai te fazer um eremita”.

            Dentre chatices mil, considero insuportável quando me interrompem a leitura. Talvez pelo fato de eu compreender o ato de ler como algo profundamente íntimo e pessoal, ainda que em meio a outras pessoas. Sento-me em um café com um bom romance em mãos; as horas e os transeuntes passam e o meu namoro com a história permanece ali, intacto. Essa minha idéia de leitura faz com que o pobre sujeito que a interrompe, com o seu “O que você tá lendo?”, seja por mim interpretado como aquele que interrompe um ato sexual. “O que você tá …?”

            De volta ao vôo. “Eu fui fazer uma consulta mediúnica para saber como eu ia morrer…” Eram onze e quarenta. Restavam apenas duas páginas de um livro policial. O thriller havia, confesso, surpreendido minhas expectativas: o personagem principal era fraco, a fórmula se repetia, a tradução continha alguns equívocos horrendos; todavia, o enredo era intrigante e muito bem encaixado ao contexto da história. Até Kant estava envolvido numa série de assassinatos! Enquanto tentava avançar para descobrir a autoria e as razões dos crimes, a matraca depressiva ao meu lado prosseguia: “Tive de terminar com ele, acabou tudo, dois anos de namoro acabaram assim, num estalar de dedos.”

            A primeira reação que adoto são as respostas evasivas, monossilábicas. “Eu não podia mais aceitar o fato de ele beber vodka toda noite…”

            – Ah…

            Fracassada essa fase, faço-me de surdo. “As dores foram aumentando depois que fui demitida…”

            – …

            Só passo para o silêncio das sobrancelhas arqueadas, no terceiro momento. Porém, esta postura revela o limiar que separa um falante empolgado do chato. O bípede sem noção, porém, vai entender esse gesto refinado de asco como uma manifestação de interesse. E foi o que ela fez: “Não sei o que é pior, o calor do Rio ou a umidade de Curitiba…” Há, então, mais dois movimentos para essa situação: a provocação e a ameaça. “O que você acha?”

            – Eu acho que vou morrer daqui a alguns anos, num churrasco do carnaval carioca, o copo de caipinha numa mão, o cigarro na outra, e a única coisa de vinte centímetros em mim não vai ser uma massa no intestino…

            Prossegui a leitura. Quando virei a folha, última página, ela se voltou a mim: “Você deveria assistir ao filme do Chico Xavier.” Fechei os olhos, inspirei fundo. Um palavrão me escalou a traquéia, mas, a tempo, impedi sua fuga. Depositei o livro no colo:

            – Está vendo essa porta ao seu lado, sim, a saída de emergência? Se você disser mais alguma coisa, um pio que seja, juro que abro essa porta e faço você chegar em Curitiba mais rápido que este avião!

            A pista de pouso estava logo adiante quando pronunciei a sentença. Não passou pela minha mente que o imaginável fosse acontecer! Seus olhos se arregalaram e ela começou a berrar desesperada. Fiquei constrangido ao prever que todos se voltariam aos nossos assentos, que alguém, um tripulante, um príncipe, um messias que fosse, viria acudir a pobre criatura e me acusar de algo impudico. (Não, não com ela!) Mas, o que testemunhei foi algo metafisicamente diverso. A matraca-chata era a personificação da caixa de Pandora; bastou que abrisse o berreiro para que toda a insanidade se revelasse no interior do avião.

            Abri novamente o livro, na desesperadora tentativa de ser absorvido pelas páginas que tinha nas mãos. (Vi isso em algum filme B, num cinema mal cheiroso da cidade.) Concentrei-me nas linhas do romance policial, sim, as passadas na neve eram do ex-assistente do professor de Königsberg, em sua casa fora encontrado um objeto semelhante a uma garra do diabo, um outro corpo foi encontrado além-muro do vilarejo…

            “Fogo!”, alguém gritou do fundo da aeronave. Outras vozes reverberaram o grito. Mas, não havia fogo! “Este senhor está passando mal!”, anunciou uma mulher adiante, enquanto apontava um sujeito que bebera meia garrafa de whisky. E a mulher-chata-caixa-de-Pandora ao meu lado urrava ainda mais alto, encurralada em sua poltrona, fazendo o sinal da cruz com os dedos em minha direção.

            As luzes do interior do avião diminuíram de intensidade. Um “oh” de surpresa geral correu pelo corredor. Era apenas a iluminação de aproximação de pista. Contudo, não foi isso que entendeu o pastor, que se levantou de seu banco, bradou no ar sua bíblia ensebada e anunciou que o fim dos dias havia iniciado e que cristo, o redentor, estava próximo. Pensei em lhe lembrar que estávamos viajando no outro sentido. Mas, calei-me quando senti uma mão me agarrar o antebraço.

            Voltei-me a ela. Em meio à algazarra dos passageiros, naquela babel de orações de variados credos, enquanto os comissários corriam trôpegos pelo corredor, batendo os joelhos em todas as quinas e os cotovelos nas testas dos desatentos, enquanto as crianças pulavam de um assento a outro, estivessem num parque de diversões, envolto às máscaras de oxigênio que se dependuravam, molengas, naquela gritaria insana que era incapaz de despertar o velho bêbado, eu a vi. E por um instante acreditei que a minha morte estava próxima; talvez fosse ela mesma, a morte, quem me apertava com vigor. Cabelos negros, ligeiramente esvoaçados, olhos de um mel escurecido, machadianamente oblíquos, e lábios largos e avermelhados que lhe revelavam, para minha tranqüilidade, uma humanidade incontestável.

            No pânico de seu – suposto – fim, a bela morena se agarrou a algo que pudesse lhe proporcionar uma sensação de proteção, um porto seguro: instintivamente, sua mão atravessou o corredor da aeronave e suas unhas se fincaram no meu braço. Socorrer-se em um escritor falido… sublimemente irônico! Quando percebi o ridículo da situação, comecei a rir, o que deve tê-la feito se sentir mais confortável e me lançar um sorriso meigo, desenho de timidez e inadequação.

            Não, novamente não me passou à vista aquele filminho retrospectivo da minha vida (o que me levou à conclusão de que não iria morrer). Não por causa daquela maldita matraca-versão-moderna-de-Pandora que persistia em berrar ao meu lado; e não a quinze metros de o avião tocar a pista.

            Uma questão, então, fez-se presente: dentro dos poucos segundos que tinha, eu precisava escolher uma ação! Primeira, restava uma página do livro; segunda, havia uma bela morena de quem eu tinha a chance de roubar um beijo sob qualquer justificativa de último desejo; terceira, eu estava diante da oportunidade de participar daquele carnaval e de soltar o grito guardado dentro de mim há tempos.

            Voltei a ler o livro…

            Contudo, o escarcéu estabelecido não respeitou os limites da segurança e se transpôs à porta da cabina. O co-piloto despertou, de súbito, de seu cochilo e derramou café sobre seu colega e sobre toda a aparelhagem do avião. Pane eletrônica. O comandante fez o que pode para controlar toneladas de metal e de gritos ao tocar a pista, mas não pôde evitar que a aeronave derrapasse na pista e girasse como um charuto num cavalo de pau. Dos berros à agonizante resignação, das piruetas horizontais ao tranco abrupto que interrompeu os enjoativos giros, do pânico ao silêncio da descoberta de estarem todos à salvo.

            Foi quando um grito percorreu o espaço apertado do avião:

            – Poorrraaaaaaa!

            Fui eu quem gritei, a plenos pulmões. Arremessei o livro no chão:

            – Que finalzinho medíocre!

            Empolgado com a resolução da trama, trazia a expectativa de um bom arremedo final… mas, não! Kant já não tinha nada a ver com os crimes, o suposto autor fora encontrado morto, a razão das mortes seriais perdera-se no embaralho do enredo, e a história se encerrava de repente, não tivesse sido possível ao autor elaborar algo sensato. Meu brado de desagrado chamou a atenção dos passageiros. Até a chata-matraca-encurralada parou de gritar. Admirei aqueles olhares curiosos a mim dirigidos. O velho bêbado ergueu-se do seu desfalecimento e anunciou: “Senhores, chegamos.” Alguém próximo a seu banco começou a aplaudir… e todos os passageiros o acompanharam numa salva aliviada.

            Enquanto aguardava minha mala na esteira da bagagem, voltei a pensar na fragilidade do instante em que temos de escolher caminhos tão diversos a tomar. Pensava que teria sido mais sensato optar por terminar de ler um livro se tivesse um Kafka nas mãos, quando senti um toque no ombro: “Acredito que você esqueceu isso no avião”, anunciou uma voz feminina. A morena esticava-me o desgraçado romance. Agradeci-lhe. Ela sorriu, virou-se e seguiu a caminhar pelo saguão. Sim, no final das contas, minha escolha fora razoavelmente acertada: conseguira encerrar o livro e desabafar a tensão de um dia cansativo em um grito. Mas, lá se ia a outra bela opção.

            Minha mala surgiu ao princípio da esteira. Voltei a olhar a saída dos passageiros e tive a impressão de que, enquanto adentrava o taxi, a morena ainda me observava. Contemplei aquela valise surrada, vindo a mim com certa preguiça… Dei-lhe as costas e corri.

            No interior do taxi, deixei que ela ditasse o endereço ao motorista.

 

Curitiba, 18 de junho de 2010.

 

Leandro França

Advogado / Escritor

RESENHA #2: A MORTE DO CAIXEIRO VIAJANTE

Publicado: 5 de julho de 2010 em Uncategorized

 

            A data correta, já não a posso precisar. Foi há cerca de dez anos, quando algumas dúvidas existenciais brotaram em meu espírito. Fui a uma biblioteca e encomendei uma empresa arriscada: em menos de um mês li, juntos e sem intervalo, Admirável Mundo Novo (Huxley), 1984 (Orwell) e Os Sofrimentos do Jovem Werther (Goethe). Ao termo das leituras, senti o pulsar silenciar no peito, vazio inebriante da ausência de sentido da vida; e, nos suspiros angustiados daquelas páginas que apagavam a inocência dos sonhos, deitado no sofá de meu apartamento, entreguei-me a um acolhedor desejo de morrer.

            Se não levei à concretude meu desejo foi por compreender, desde cedo, que a arte exige contemplação e livre acolhimento. Para compreender uma obra de arte é necessário emprestar-se a ela, permitir, sem qualquer imposição de limites, que ela o conduza ao sofrimento, à paixão, ao riso, às lágrimas. A literatura, como uma de suas manifestações, tem dessas demandas. Aquele desejo de desfalecer no palco da existência bastou-se em si.

            A lembrança daquela tarde veio-me de pronto quando me sentei para ler A Morte do Caixeiro Viajante (Death of a Salesman), de Arthur Miller. Eu estava ensopado…

            Atravessei as milhas da avenida Broadway, desde seu extremo sul, sob uma descarga d’água quase apocalíptica. Corria, corria, mergulhava em poças, saltava canteiros, driblava carros, deslizava sobre capôs de táxis amarelos, corria, movido por um fôlego infante, bandido. Num recuo que encontrei, contemplei o céu que se derramava e percebi que, em Nova Iorque, não se testemunha o pôr-do-sol, jamais. Agarrado a um pacote, protegia um pequeno tesouro. Voltei a correr, a atravessar as gotas que refletiam as cores do final do dia, tal graves pinceladas.

            Corri, corri, tomei a esquerda; corri ainda mais veloz, alcancei a Sétima e me lancei sob a cobertura de uma livraria. Sentado ao canto da vitrina, acendi um cigarro e traguei fundo. Senti o peso da roupa molhada, o vapor que emanava do tecido, verifiquei o pacote: íntegros e secos, filmes polaróides não mais comercializados e o terceiro livro de Henry Miller, publicação rara e esquecida. Admirava minhas aquisições, quando ouvi o estalar de uma moeda ao meu lado. Um nobre cavalheiro de longa capa confundira-me com um mendigo. Quis atirar-lhe a moeda de volta, mas bastei-me e guardei a moeda no bolso: a quarter is money.

            Adentrei a livraria, busquei uma poltrona ao fundo do saguão. Enquanto esperava o café que havia pedido, vislumbrei um livro na estante à frente. Assim disposto, A Morte do Caixeiro Viajante parecia encomendar-se a mim. Alcancei-o. E iniciei sua leitura…

            Willy Loman é um vendedor da década de 1920. E o retrato que Arthur Miller fez dessa personagem se resume ao seu último dia de vida. Aos sessenta e três anos de idade, com a vida dedicada ao trabalho no estilo american way, Willy se questiona em que momento de sua vida ele teria tomado o rumo errado. Sob o desastre de sonhos fracassados e planos frustrados, Willy é um homem ultrapassado pela própria realidade em que insiste em sustentar.

            Somos apresentados a um homem que parece enlouquecido. Willy mostra ser uma presença sufocante: orgulhoso, recusa propostas de auxílio de seu vizinho Charley; é surdo à argumentação de seus filhos, em especial à de Biff, o filho que representa o seu oposto. É este quem aponta, desesperado, a transformação monstruosa de Willy: “Olhe pra você! Olhe no que você se transformou!” No entanto, é este mesmo filho quem se refere a seu pai como um príncipe: “Senhorita Forsythe, você acabou de ver um príncipe passar. Um príncipe bom, e perturbado. Um príncipe trabalhador, e não reconhecido. Um amigo, você entende? Uma boa companhia. Sempre por seus garotos.”

            As palavras de Biff são cruelmente realistas: Willy Loman é um príncipe. Minha leitura não diverge: é um Hamlet limitado pela ausência de genialidade, cego por um sonho que não vinga. Mas, não muito diferente do príncipe shakespeariano, o caixeiro viajante é um solo man: Willy interpreta um papel diante de todos que o cercam. E, aos poucos, vai perdendo sua audiência: vão-se os compradores, vai-se o chefe, e, depois, seu filho Biff, até o ponto em que parece caminhar só no palco, inseguro de sua capacidade de interpretar um papel que ele confunde com sua própria personalidade.

            Se rascunhei que Willy parece enlouquecido, foi por considerar um equívoco vê-lo como um caso patológico. Tal como Christopher Bigsby defendeu, considero um erro interpretá-lo nos palcos como tal. Willy é um homem exausto, batalhando por sua vida, tentando sustentar um sentido de si mesmo que justifique a existência num mundo que oferece cada vez menos espaço ao indivíduo. O título do texto de Arthur Miller não esconde o resultado do drama desenvolvido. Assim, o suicídio de Willy Loman constitui a derrota anunciada da personagem.

            Quando, na noite de estréia da peça, uma espectadora chamou o espetáculo de uma “bomba-relógio sob o capitalismo americano”, Miller respondeu que era uma bomba debaixo “da merda do capitalismo, esta pseudo vida que acreditou ser possível alcançar as nuvens subindo no topo de uma geladeira, acenando o recibo da hipoteca para a lua, finalmente vitorioso.”[1] Acima de tudo, porém, o texto de Miller dispõe diante da América o cadáver de um verdadeiro sonhador. A peça é uma ferida aberta numa sociedade em que, por sua própria formação (imigração refugiada/rejeição do passado), a fé no futuro não é uma questão de escolha.

            Assombrado pelo passado, cego ao presente, Willy Loman depositou sua fé no futuro, na eterna busca por um amanhã diferente. (Este retrato que Miller captou e o tratamento dado aos diferentes tempos do enredo tornam a peça valiosa). Restou-lhe a esperança de que em seu funeral, centenas de pessoas iriam, enfim, reconhecer seus esforços e o prestigiar. Quem dera eu pudesse ter lhe indicado aqueles três livros que nos brindam com a insignificância da morte. Quem dera, então, Willy tivesse reconhecido que o ato de dar cabo à sua vida faria menos sentido do que sua própria existência.

            O café que havia pedido chegou. E ali ficou, esquecido, por todo o tempo da leitura. Só dei por ele quando identifiquei que o lamento de Linda, sua esposa, parecia contaminado pelo pensamento de Willy: “Por que ninguém veio ao funeral?” Ao final, restava claro, Willy Loman era somente um exemplar de uma sociedade que com ele compartilhava as mesmas crenças e as mesmas angústias.

 

No décimo oitavo dia do mês de maio de 2010.

Na poltrona de uma livraria, na 7th Avenue, New York.

 

Leandro França

Advogado / Escritor

 


[1] MILLER, Arthur. Death of a salesman. London: Penguin. p. xxiv.

NÃO PERTENÇO

Publicado: 5 de julho de 2010 em Uncategorized

 

            Larry Rohter, repórter do New York Times, descreveu como ficou impressionado com uma placa que viu na parede do restaurante Caneco 70, no Rio de Janeiro: “É terminantemente proibido fazer batucadas nas mesas, cantar ou tocar instrumentos musicais enquanto a clientela está comendo”. Para o jornalista americano, a necessidade de se sustentar o aviso decorria de uma exuberância tupiniquim impossível de ser contida em um cenário formal. Com o passar dos anos, conforme se depreende de seus relatos, Rohter tendeu a reconhecer no comportamento dos brasileiros um difuso egoísmo.

            Suas observações combinam com testemunhos meus. Em uma viagem interestadual recente, levantei-me de meu assento para solicitar a um dos passageiros que desligasse o celular, que tocava um funk barato, no último volume. Da mesma forma, tenho empreendido similares enfrentamentos com pessoas que jogam lixos nas ruas, que atendem ao celular em sessões de cinema, que pilotam seus veículos como não houvesse normas de trânsito. Não sou um fiscal da lei, a exigir que cada cidadão se comporte conforme ela determina. Pelo contrário, muitas vezes, esforço-me mais em proteger os direitos de cidadania do que a lei estabelecida, o que me torna mais uma personagem quixotesca do que um justiceiro de folhetim.

            O episódio relativo à proibição de se fumar em estabelecimentos comerciais foi motivo para alguns atos meus de desobediência civil. Ainda considero inaceitável que o Estado obrigue empresários e comerciantes a proibirem o fumo em seus próprios e privados empreendimentos. O argumento de preservação de saúde pública é uma falácia diante da falta de investimentos no setor e de uma população que morre de gripe, de dengue ou pela demora em receber tratamento médico especializado. Inspirado por uma campanha aventurosa de um amigo, alcunhada de “Acenda!”, passei a acender cigarros nos locais em que antes se permitia o fumo.

            Voltei-me também a outro projeto ousado: “Faça um agente de trânsito chorar”. Concordo com a essencialidade da administração do tráfego e dos estacionamentos nos espaços públicos; o que temos testemunhado, porém, é um controle abusivo por parte desses agentes públicos que os tornaram unicamente emissores de multas. Um mínimo de coeficiente de intelectualidade é suficiente para se compreender que o controle do tráfego transformou-se em um maquinário de constrangimento e enriquecimento. A partir daí, ainda que sem ter qualquer veículo automotor, assumi o compromisso de, ao encontrar um desses agentes, acabar com o seu dia. Basta um cumprimento espirituoso, um comentário crítico, algumas perguntas sobre se os carros multados estavam, de fato e de direito, irregulares… e pronto: vêm abaixo.

            O curioso em todos esses atos é que me manifesto sozinho. Quando explico a algum nonsense que não faço questão de saber que música ele gosta de ouvir, quando peço que se interrompam conversas em locais em que elas não são adequadas, percebo, ao meu redor, um silêncio intimidador e olhares covardes. Já cheguei a supor que nos houvessem extraído as amígdalas (não as da garganta, e sim as de nossos encéfalos), tal como os experimentos de Klüver e Bucy, os quais removeram os lobos temporais de macacos e observaram que as cobaias tornaram-se apáticas, plácidas (placidity), sem qualquer reação diante de ameaças ou perigos, tendo sido repetidamente atacadas por cobras.

            A teoria conspiratória infundada, contudo, desfez-se defronte a experiência de acender cigarros em locais (agora) proibidos e de exigir justificativas aos agentes de trânsito: o que encontro são sorrisos de empatia e incentivo em meio aos olhinhos tristes de cordeiros. Sim, os brasileiros somos tais como os carneiros medrosos: passamos o dia a balir; mas, quando o lobo se aproxima e mata um dos nossos, inexplicavelmente silenciamos.

            Que não se invoque o mito da cordialidade de nossas terras para justificar nossa apatia, quando matamos mais que os estadunidenses e promovemos mais quebra-quebras e tumultos que hooligans e nossos latinos hermanos, juntos. Vivemos uma anomia cultural, agravada por um corrosivo individualismo (auxiliado pela tecnologia).

            A cada nova vez que me levanto de meu assento, a cada nova necessidade que tenho de interpelar algum incômodo bípede, a cada novo momento em que me esforço em resguardar nosso direito de exercer e vivenciar a cidadania diante de pessoas, poderes ou leis que a agridem, percebo-me, porém, um inconveniente. No desregramento de uma orquestra sem maestro, sem ensaios e sem vontade, nada vale o violinista querer executar uma boa peça. A cada novo movimento, sinto, simples assim, que não pertenço. E cresce um gosto acre de despedida.

 

Curitiba, 27 de abril de 2010.

 

Leandro França

Advogado / Escritor 

RESENHA #1: O ESTRANGEIRO

Publicado: 5 de julho de 2010 em Uncategorized

 

            Não sei bem até que ponto podemos responsabilizar o sol pelos disparos ocorridos nos arredores de Argel. Pois, na constatação do absurdo da existência, há única certeza: a indiferença do mundo. (Meursault reconheceu isso, feliz, diante de uma noite carregada de sinais e estrelas.) E para que a vida não se perca no vazio do silêncio, o resto são suposições.

            E foi em uma delas, singela presunção, que me agarrei para me erguer do sono e empreender o dia. Despertei com o rosto febril pelos raios de sol que conseguiram escapar pela fresta das cortinas. A ardência dessa exposição inconseqüente, dos estalos nas têmporas, fez-me questionar: teria sido esse mesmo sol, único no céu esvaziado de nuvens, aquele que atormentara Meursault na tarde em que matou o árabe?

            Na primeira parte do enredo, após se recusar a ver o corpo de sua mãe, quem morrera recentemente num asilo, Meursault aceitou uma xícara de café com leite. Hesitou em acender um cigarro na sala de velório, porém não viu qualquer importância na preocupação de o fazer diante do caixão. E fumou. Em uma narrativa sensorial, acompanhamos o seu cotidiano alheio de sentido, o seu desapego aos relacionamentos, a sua compreensão de mundo como uma seqüência ilógica de acasos. No décimo oitavo dia de sua apresentação, num domingo de árido sol, em meio aos rochedos do litoral, ocorreu o homicídio: adivinhando-lhe por instantes o olhar, entre as pálpebras semicerradas, Meursault vislumbrou o árabe nas areias da praia e o encurralou com sua presença; sob o calor escaldante, sob o mesmo sol do dia em que sua mãe fora enterrada, Meursault sentiu o suor apegado às sobrancelhas, sentiu os olhos se cegarem por detrás de uma cortina de lágrimas e sal, sentiu o reflexo da lâmina que o árabe sustentou corroer-lhe a vista. Apertou o gatilho. E disparou mais quatro tiros no corpo inerte; tão inerte quanto a sua ausência de reação em matar um homem e em desequilibrar o dia.

            Meursault é o próprio estrangeiro. Da sábia escolha de Albert Camus ao intitular sua primeira novela de L’Étranger, a etimologia do termo nos remete à concepção romana de hostis alienigena, o indivíduo estranho, forasteiro, o bárbaro que não pode ser compreendido. (De fato, tomado do grego, o barbari era o não-grego, cuja língua era incompreensível.) Talvez somente a língua alemã tenha preservado semelhante étimo, no qual se reúnem estranho e estrangeiro no único Fremde; em oposição à problemática da tradução do título desta obra para a língua inglesa, o qual, por vezes, é traduzido como The Stranger, outras vezes, The Outsider.

            Mas, ao ser lhe dado voz em primeira pessoa, Meursault torna sua própria alcunha um tanto quanto contraditória. A narrativa é mais íntima que uma confissão pessoal; e tal como o professor Humbert, de Lolita, suas sinceras linhas de confidências o aproximam do leitor a tal ponto que o considerar um estranho pode parecer um contra-senso.

            Na segunda parte de sua história, o que antes nos conduzia a apreender como passividade ou insensibilidade doentia toma os contornos de uma indiferença plena quanto ao seu universo: Meursault revela-se um complexo de percepções; e nada mais. Em seu interrogatório, ao ser questionado pelo juiz de instrução se estava arrependido de seu ato, Meursault responde que, mais do que isso, ele experimentava um certo aborrecimento. Quando Marie vai visitá-lo na prisão, enquanto ela discorre sobre esperanças e planos de casamento, Meursault se concentra na saudade do tecido delicado de seu vestido, no brilho de seus dentes e nas pequenas rugas junto aos seus olhos.

            Ao adentrar o tribunal sente-se como o recém-chegado ao bonde, para quem todos os passageiros anônimos espiavam para observar o que tinha de ridículo. Essa percepção se estende por toda a instrução processual. Da cena burlesca em que o juiz agita em sua direção um crucifixo de prata. Pela absurda constatação de que a guilhotina não portava a grandiosidade que imaginara, sem a subida ao cadafalso e sua correspondente ascensão ao céu. (Estando no chão, no mesmo nível que o homem que para ela se dirigia – quem poderia muito bem ir “ter com ela, precisamente como iria ter com uma pessoa” –, a guilhotina tornara-se a vitória do maquinismo.) Até a patética desproporção entre os efeitos da sentença, tão certeira, e a condução dos atos processuais: o fato de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite; o fato de que poderia ter sido outra sentença, totalmente diferente; o fato de ela ter sido resolvida por homens “que mudam de roupa de baixo”.

            Todavia, é a sua relação com o sol, quase um segundo personagem, que me encanta. E me remete à representação de Kaspar ou a triste história do pequeno rei do infinito, na qual, em oposição a Meursault, o jovem Kaspar Hauser encontrava no sol o seu melhor amigo. Na montagem do grupo Satyros (2004), uma cena foi tocante: Kaspar pedia ao sol que este lhe trouxesse sua mãe não conhecida à sua presença; ele pedia, fechava os olhos com força e os abria na vã esperança de vê-la diante de si; fazia isso, repetidamente, num jogo infantil e triste. Sua insistência não a trouxe. A indiferença de seu amigo sol trouxe apenas lágrimas. Suas. Minhas.

            Quanto a’O Estrangeiro, reproduzi-lo nos palcos são passos a uma desventura. Recentemente, Guilherme Leme esforçou-se e conquistou certa simpatia. Mas, é necessária uma voz mais grave e serena; é necessário um roteiro sério, que não conduza ao riso ou ao sarcasmo. A essência da novela de Camus reside neste homem, Meursault, que é incapaz de sair das páginas de seu próprio conto. (Porque sair não lhe interessa.) Que é capaz, no entanto, de fazer nascer uma inesperada empatia e o palatável desejo de tomar um café e fumar um cigarro ao seu lado.

            Suponho que diversas são as maneiras como o sol testemunha o acaso do viver. Mas é certo que o astro que brilha lá fora é o sol de Meursault, é o sol de Kaspar. Hoje, e sempre, indiferente.

 

No décimo oitavo dia do mês de abril de 2010.

Num domingo, ensolarado.

 

Leandro França

Advogado / Escritor

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Publicado: 28 de março de 2010 em Uncategorized

 

“Pensando de novo?” perguntou a Duquesa, com nova fincada do seu queixinho pontudo.

“Tenho o direito de pensar”, Alice respondeu bruscamente, pois estava começando a ficar um pouco preocupada.

“Tanto direito”, disse a Duquesa, “quanto os porcos têm de voar; …”

(CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas. cap. IX.)

 

            (Sento-me na poltrona. Ao fundo, um concerto de Bach; tenho quase a certeza de que é a peça BWV 1042, primeiro movimento, allegro. Restam alguns minutos antes de o filme começar.)

             Há três lugares que, vez ou outra, tenho o desgosto de adentrar. Edificados sobre uma frieza cruel, com suas estruturas assépticas e um som ambiente que parece retirado de antigos videogames, nesses espaços perambulam vultos solitários, tristonhos, ou matilhas que compartilham um diálogo discreto, quase mudo. Evito ao máximo cada um deles, pois, meu ingresso me vale o incômodo desejo de gritar, despertar todos os pacientes, toda a beleza insossa e todos os manequins de seus sonambulismos contagiosos; tal como a criança que assovia um flato para romper com o aborrecimento de uma viagem no elevador.

             Odeio hospitais, baladas do Batel e shoppings centers. Vez por outra, porém, entro nesses espaços. Além da indisposição que me causam, inquieta-me a perspectiva que elaboro a cada encenação que ocorre diante de mim: não consigo evitar enxergar os corredores de clínicas e hospitais como uma revolução arquitetônica de um campo de concentração, e, na brancura dos uniformes dos doutores e circulantes, vejo uma hospedaria de tristes histórias e perdas; em meio aos corpos que balançam envergonhados às batidas das luzes estroboscópicas e a uma sonoridade martelada, vislumbro uma festa de perfumes doces e pudores antiquados; nas vitrinas de um zoológico de consumo, ainda me perturba a idéia da inversão do urbanismo, com as lojas de ancas cerradas às vias públicas e suas bocas voltadas a ruas privatizadas, no interior de enormes construções em blocos e sem janelas.

             E são nestes locais, os shoppings, em que, na primeira passada, transformo-me em Alice e tudo o mais – terrores, fastios e encantamentos – são maravilhas a brotar diante dos meus olhos.

             Domingo passado, enquanto toda a população rumava aos parques para fazer um jogging no estilo de procissão, eu e N. buscamos nos esconder em algum café da cidade. Ainda que a contragosto, adentramos um shopping pela proximidade de onde estávamos. Subimos os lances das escadas rolantes; último andar; sentamos à mesa; dois espressos, por favor; respiramos fundo. E N. começou a conversar. Sem o seu interlocutor. Enquanto ela falava, minha atenção se voltou a um estranho brinquedo desenvolvido para crianças: em uma piscina, enormes bolas plásticas flutuavam de margem a outra com crianças em seus interiores; pareciam hamsters presos naqueles circuitos insanos, corriam desesperadamente sem se mover do lugar e, após poucos minutos, derrubavam seus corpos exaustos, para recomeçar a correr em falso, em seguida. Fiquei ali, a admirar aquela metáfora de mau gosto e a imaginar o resultado de injetar gás hélio no interior daquelas bolas plásticas… o que tornaria curioso o testemunho de crianças quicando de lado a outro do edifício, aprisionadas em gigantescas bolhas de sabão.

            Outra tarde. Tive um momento de insensatez e, no acme do período de compras ao final do ano, entrei em uma livraria de um shopping. Vislumbrei que os seus dois andares de estantes carregadas de livros poderiam dar conta da lista de presentes que tinha em mãos. Aí, cometi a maior besteira que se pode fazer no interior desses estabelecimentos: solicitei ajuda a uma funcionária. Pedi que ela buscasse algum livro do Marquês de Sade. Seu rosto deformou-se estranhamente e imaginei o que ela deveria ter pensado a respeito da minha vida sexual. Ela pediu que eu a acompanhasse (o que me deu quase certeza de confirmação do pensamento anterior). Parou diante de um computador e digitou em um campo de busca: “Saadi”. Não encontrou resultado algum. “Esses autores indianos são bem complicado de chegar aqui”, ela me disse. Engoli em seco e, na tentativa de disfarçar meu espanto, pedi que buscasse outro autor, Voltaire. Novamente, ela se virou ao computador. E vi surgir na tela um nome esquisito: “Vôtér”. Nada nas estantes, nada no estoque. “Vou tentar sem os acentos, sabe como é esses sistemas…” Comecei a gostar do jogo e permiti que fizesse nova busca. “É, senhor, também não temos este.” Respirei fundo, contei um, dois, três segundos e prossegui com a diversão: pedi Salman Rushdie, Anaïs Nin, Jhumpa Lahiri, Loïc Wacquant, Arthur Schnitzler, Dostoievski, Foucault. Meus olhos se arregalaram diante das formações gráficas que surgiram na tela. “Senhor, desculpe, mas não temos esses livros, mas posso lhe recomendar alguns bons presentes”. Por que não? Em menos de um minuto, ela voltou abraçada a uma pilha de livros: “Senhor, posso garantir que o senhor não vai se arrepender!” Retirei os livros, um a um, de seus braços: o lançamento mais recente de Zíbia Gasparetto, outro de Augusto Cury, a biografia de Lula, uma coletânea de Diogo Mainardi, os livros da série Crepúsculo, uns dois romances passados no Oriente Médio, um guia de viagens do Zeca Camargo, o novo livro de Dan Brown e, por fim, algumas porcarias do padre Fabio de Melo. Agradeci a atenção e me retirei antes que ela me trouxesse A Cabana.

            O fato de as salas de cinema terem migrado aos shoppings me obrigou a ir visitá-los. Para compensar o contragosto, sempre busquei os horários mais impróprios – as matinês – ou as salas que permaneceram no ostracismo cultural. Cá estava, em um shopping que, mesmo localizado em parte nobre da cidade, é conhecido por não ter viv’alma em seu interior. O edifício, um esqueleto abandonado de metais e vidros. (Vez ou outra, um pianista executa belas peças a um público inexistente e lhe proporciona uma sensação ainda maior de esquecimento.) Caminhava, de lado a outro, no subsolo do shopping, a esperar o horário da sessão. Estava perdido na análise dos cartazes de outros filmes e peças de teatro quando dei pela presença de uma jovem ao meu lado. Encenei um gesto discreto e desconfiado, quase antipático, e lhe cumprimentei. Ela permaneceu a me encarar, tendo apenas piscado os olhos duas vezes com tamanha veemência que me pareceram estalos. Voltei-me ao meu exercício de contemplação dos cartazes. E ela continuou ali. Imóvel, a menos de dois metros, à minha direita. Pensei em ensaiar uma saída cavalheiresca, um aceno de cabeça, uma meia-volta militar, e o caminhar de despedida ao estilo Carlitos. Pensei que poderia fingir atender uma ligação no meu celular, empreender uma conversa animada e conseguir me desvencilhar daqueles olhos azuis. Um discreto movimento oblíquo ma revelou: tinha pouco mais de vinte anos, cabelos loiros compridos. Pensei em rearranjar a ordem daqueles cartazes, concentrando-me em retirá-los com o cuidado de não os amassar e os repousando novamente na parede, ignorando por completo sua presença. Era bela; tinha o desenho do rosto muito delicado, nariz de traços finos, lábios vigorosos. Atentei-me ao seu pescoço: ergonomicamente sensual. Pensei em acender um cigarro, mas concluí que isso poderia ser entendido como um sinal de abertura para uma conversa. Aspirei o seu perfume: Angel. Fiquei no aguardo que dissesse alguma coisa, uma palavra muda que fosse. Deslizei os olhos pelos contornos de seu corpo. Mas, o que surgiu foi a sombra de seu namorado. Uma forma triangular de massa muscular, um minotauro que dela se aproximou e lhe segredou algo incompreensível. Pensei em Sartre, no seu Esboço para uma teoria das emoções, na sua concepção de medo passivo, na minha intenção inexplicável de evasão, e desejei desfalecer. Concentrei-me em seu pescoço: ergonomicamente forte. Fechei os olhos, senti sua presença mais próxima, a violência do ar entrando-saindo de suas narinas. Busquei me concentrar no extraordinário das relações humanas, tentei encontrar alguma sentença espirituosa para proferir ou para relembrar diante de um trágico fim anunciado, corri os dedos pelos meus arquivos mentais empoeirados na tentativa de compreender a razão de uma existência tão curta e sem sentido como a minha.

            Descerrei o olhar e me vi diante de um brutamonte que me esticava um bloco de papel e uma caneta. Oh, um leitor meu! A mão trêmula e o inglês engasgado: “Mister Grohl, could you give an autograph for my girlfriend and me?” Alcancei-os. Ela estalava os olhos azuis com uma força descomunal; ele enxugava as mãos nas calças. Trocaram olhares e risinhos nervosos. Pousei a caneta no papel e assinei: “Fuck you two, Dave Grohl, Foo Fighters.” O jovem pegou o bloco, concentrou-se nas rasuras e, depois, abriu um largo sorriso; passou-o para sua namorada dos olhos azuis e agradeceu com um movimento largo dos braços. Contornou a garota com um abraço vigoroso e a conduziu até a escada rolante, enquanto sussurrava baixinho “fuck you two, fuck you two, muito bom, cara, muito bom”. Do alto da escada, ainda voltou-se para mim e gritou: “Isso aí! Fuck you two! Rock’n roll!” Dei meia-volta. Entreguei meu bilhete para o funcionário do cinema. “Conhece o maluco?”, ele me interpelou. Fiz um aceno negativo e aqui adentrei.

            (O concerto interrompeu-se bruscamente. Aniquilaram a orquestra radiofônica. Seqüestraram a batuta do maestro, no compasso final. O filme começou.)

  

 Curitiba, 7 de março de 2010.

  

Leandro França

Advogado / Escritor